PREFÁCIO


O homem é o único ser capaz de transmitir suas experiências e descobertas para as gerações seguintes; é o que faz a humanidade avançar, a ciência e a cultura progredir e o conhecimento se expandir. Assim, é esperado que pais e avós se empenhem em transmitir seus valores aos filhos e netos. Não é esta a mais valiosa das heranças?
Para os pais, esta tarefa flui naturalmente no convívio diário e em doses homeopáticas: eles passam seus ideais aos filhos que, sem perceberem, os absorvem. E, quando adultos, questionarão estes ensinamentos, mantendo ou modificando os valores recebidos na infância. Mas, como fazer com os netos e bisnetos, com quem não tenho contato diário? Me lembro que no fim dos anos 80, quando minhas netas eram pequenas, eu tinha vontade de conversar e transmitir a elas o que eu passara durante a guerra, mas como fazer isto? Teria que esperar quanto tempo até elas crescerem para termos uma conversa sobre o assunto? Estes pensamentos me levaram a escrever minhas memórias e a de minha esposa, agora já falecida. Assim, o livro é dividido em duas partes. A primeira fala sobre a família Janowski, em relatos que obtive através de antigas conversas com meus sogros e minha esposa. A segunda parte, mais detalhada, fala da família Dymetman e se trata de um relato autobiográfico. O que há de mais precioso neste livro é a sua honestidade e veracidade. Apenas tive o cuidado de alterar alguns nomes, a fim de respeitar a privacidade de pessoas que ainda estão vivas e suavizar alguns episódios envolvendo crueldades que preferi não rememorá-las em detalhes.
Quando escrevi o manuscrito original deste livro, o meu objetivo era contar às minhas netas o que ocorreu com seus avôs e bisavôs maternos. Também queria proporcionar a elas um relato fidedigno do que ocorreu aos judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Afinal, os anos estão passando e em breve não haverá mais testemunhas vivas, além disto, nossos inimigos espalham mentiras, distorções e até ousam negar o que eu vi com meus próprios olhos e senti na minha própria pele. Este manuscrito permaneceu guardado durante anos, apenas para o acesso da nossa família, mas este ano minha filha e netas me estimularam e me ajudaram a publicá-lo, o que me mostrou que valeu a pena escrevê-lo. Atualmente, já tenho três bisnetos e espero que eles também continuem a guardar a memória do que nos aconteceu. Meu conselho para as netas, bisnetos, futuros tataranetos e demais leitores: usem a imaginação e visualizem os personagens que vou lhes apresentando como pessoas de carne e osso, lutando desesperadamente para sobreviver àquela época turbulenta na qual Deus nos colocou. Gostaria também que as reflexões deste livro fossem úteis para os dias atuais e que nunca se esqueçam de um dos deveres mais importantes da nossa religião e tradição: Ticun Olam, isto é, “consertar o mundo”. Cada um de nós tem o dever de melhorar a sociedade em que vive, lutar contra as injustiças e desigualdades que presencia, sejam elas sociais, de gênero, posição econômica, religião ou qualquer outra. E, sobretudo, gostaria de passar uma mensagem que sempre me acompanhou: quando se perde as esperanças e o futuro parece uma nuvem negra, nunca desanimem, repito, nunca desanimem. Por mais ilógico que seja, mantenham a fé, porque quando menos se espera o sol reaparece.

 

Esquecer, jamais.