“OBRIGADA, SABA

Cresci ouvindo histórias sobre a Segunda Guerra Mundial. Ouvia-as no colégio judaico da minha infância, em casa e nos espaços sociais e culturais que eu frequentava: no clube, no movimento juvenil, nas grandes comemorações. O foco era sempre o mesmo, a shoá - o extermínio de seis milhões de judeus e a crueldade da Potência do Eixo. Para mim, o Holocausto era um acontecimento histórico incontestável, pano de fundo do judaísmo contemporâneo. Isso até a adolescência, quando mudei de colégio.
Na nova escola, eu e um colega de sala éramos os únicos judeus e, lá, pela primeira vez, passei pela experiência de ver contestada a veracidade dos fatos da Segunda Guerra e de ser indagada sobre se o Holocausto não seria, na verdade, uma invenção dos judeus para se “fazerem de vítimas” e, assim, serem mais bem aceitos na sociedade ampla. Imediatamente rebati, não me deixando abalar pelas falas dos colegas. Mas, depois, refletindo sobre as acusações e os argumentos, titubeei e cheguei a me perguntar se o Holocausto realmente ocorrera. Como meus avós haviam passado pelo Holocausto, resolvi consultá-los.
Jamais esquecerei a expressão chocada e a palidez do rosto de meu avô à minha pergunta! Aos poucos ele foi se recompondo e, então, começou a me falar sobre a sua história na Segunda Guerra, sobre a história da nossa família, sobre o sofrimento e a luta, dia após dia, durante aqueles seis longos e terríveis anos. E foi naquela ocasião que ele me mostrou, pela primeira vez, o livro dedicado às netas - Anos de Lutas -, que ele escrevera alguns anos antes. Tratava-se do testemunho sobre o que as famílias de meu avô e minha avó haviam passado durante a guerra e sobre as suas dificuldades. Falava como eles haviam lutado, como foram heróicos e como recomeçaram suas vidas, depois de terem perdido praticamente tudo o que possuíam e tudo o que eram antes da instauração do horror. Foi lendo cada palavra desse livro, que imprime emoção e realidade subjetiva aos fatos históricos, que tive absoluta certeza de que as histórias do Holocausto eram verdadeiras e tive a percepção do quanto é importante e fortalecedora a união tanto do povo judeu, como a do núcleo familiar. Meus questionamentos haviam sido respondidos, sim. Mas, e o eventual questionamento dos outros? Daqueles que nunca haviam entrado em contato com um testemunho direto e vívido como, por exemplo, o de meu avô?
O término da Segunda Guerra foi há mais de 60 anos, e hoje são poucos os sobreviventes que ainda estão entre nós. Precisamos das histórias, das informações e da divulgação das atrocidades vividas por eles, para formarmos uma corrente com nossos filhos e netos e não deixarmos que a memória desapareça. É importante sabermos de onde viemos para sonhar e projetar o nosso futuro. Nossa coragem coletiva resulta de conhecermos o que o nosso povo e a nossa família já enfrentaram, conquistaram, venceram, assim como a nossa força pessoal nasce, também ela, da força do coletivo.
Enquanto meu avô dedica seu livro às netas, fico imaginando o dia em que os meus filhos lerão as histórias de seus bisavós e, por sua vez, se emocionarão com as vidas, as passagens, o sofrimento, a coragem e a força de nossos familiares. Também eles saberão que descendemos de lutadores heróicos e vitoriosos. E é pelo seu testemunho, Saba, que expresso aqui, em nome da minha e das gerações futuras da nossa família: “Obrigada!”, por nos transferir suas histórias, seus sentimentos e suas emoções.

Galah R. Dymetman, São Paulo, 2011.
Neta de Michel Dymetman