As histórias que meus avós contavam         


As histórias que os meus avós - saba e safta¹ - contavam sempre permearam o imaginário da minha família. Eu cresci as ouvindo atentamente, num misto de estranhamento e fascínio. Um dia quando adolescente, vi o manuscrito original deste livro, escrito em 1988, guardado no canto de uma estante do quarto da minha mãe e o peguei para folhear. Fiquei muito contente em ver que o livro era dedicado às netas, embora já soubesse, e comecei a lê-lo. Na época, não compreendia bem aquilo que eu lia, nem a importância daqueles relatos, só sabia que as histórias da guerra que eu sempre ouvia estavam com mais detalhes e pareciam mais reais, o que me levou a  perguntar e a conversar mais com os meus avós acerca daquela época.
Anos mais tarde, numa estadia na Europa, resolvi conhecer alguns dos lugares descritos neste livro, como os campos de Drancy (França) e Mauthausen (Áustria), além de visitar campos de concentração na Alemanha e na Polônia. Aquela viagem transformou a leitura que eu fiz na adolescência. Mais que isto, me fez sentir um pouco da emoção presente naquelas histórias que eu já conhecia tão bem. Então, eu percebi que não apenas os meus avós e bisavós tinham sobrevivido àqueles dias sombrios, mas toda a minha família, inclusive eu e as futuras gerações. Aquele manuscrito, então, passou a fazer parte da minha própria história.
A partir de então, entendi que sendo terceira geração de sobreviventes, eu precisava continuar os esforços do meu avô em contar aquela história, então sugeri a ele que publicássemos,  me comprometendo a fazer o esforço para tal. Ele concordou, feliz por poder dar continuidade a algo iniciado há 23 anos. Além disto, minha mãe e minha irmã também se envolveram neste trabalho. Assim, a riqueza deste livro não está apenas nos testemunhos presentes, mas no processo como um todo, que envolveu o empenho de três gerações a fim de preservar a memória da família e, consequentemente, do nosso povo.
A memória é uma forma de protesto, disse Elie Wiesel em seu discurso de premiação do Nobel da Paz. Protesto não apenas contra o Holocausto, mas contra todas as pessoas ou Estados que negam ou perpetuam a crueldade e desrespeitam os Direitos Humanos. Assim, é preciso ter em mente que a memória e o passado são uma constante construção. Isto é, o passado não é apenas aquilo que ocorreu, mas é a percepção que se tem do que ocorreu, que é reconstruída a todo instante no nosso presente. Portanto, é no aqui e no agora que escolhemos como queremos narrar a nossa história, o que dá o contorno da nossa própria identidade. Da mesma forma, a maneira como contamos a nossa trajetória também muda o nosso olhar para o futuro, citando Wiesel, “sem passado não há futuro, pois o oposto do passado não é o futuro, mas a ausência deste, assim como o oposto do futuro não é o passado, mas a ausência de passado. A perda de um equivale ao sacrifício do outro”.
Primo Levi dizia que os sobreviventes podem ser divididos em dois grupos, “os que calam e os que falam”. É com carinhosa admiração que eu agradeço imensamente ao saba por ter tido a possibilidade e o desejo de contar a sua história e a da safta. Convido a todos a participarem desta memória, boa leitura.

“Nós que vivemos nos campos de concentração podemos                Sharon, São Paulo, 2011
lembrar de homens que andavam pelos alojamentos
confortando a outros, dando o seu último pedaço de pão.              Neta de Michel Dymetman
Eles devem ter sido poucos em número, mas ofereceram
 prova suficiente que tudo pode ser tirado do homem,
menos uma coisa: a última das liberdades humanas –
escolher sua atitude em qualquer circunstância,
 escolher o próprio caminho”
Viktor Emil Frankl

¹ Avô e a avó em hebraico, respectivamente.