SER SEGUNDA GERAÇÃO

Durante a maior parte da minha vida ter pertencido à Segunda Geração do Holocausto foi penoso. Penoso na infância e nos primeiros anos da adolescência, por conta do sofrimento mais adivinhado do que realmente entendido pelo qual meus pais haviam passado, e penoso porque parecia ser essa uma experiência solitária, absolutamente particular de minha família, impossível de ser repartida, comunicada.
Em um mundo em reconstrução, ávido por deixar para trás os horrores da guerra, falou-se muito pouco sobre o Holocausto, durante muito tempo. Depois, já na década dos anos 1970, nos tempos de faculdade, quando se começava a criar disciplinas e cátedras sobre o Holocausto, descobri que eu fazia parte de um coletivo, que tínhamos referencia uns nos outros, e que, enfim, em Israel, nos Estados Unidos, ou no Brasil, constituíamos uma geração, compartilhando significados, percepções, vivências. Foi um alívio.
Um alívio relativo, no entanto, pois o sofrimento dos sobreviventes, agora que eu podia apreendê-lo em toda a sua profundidade e o seu horror, parecia impregnar de alguma forma a minha vida e a de toda a nossa Segunda Geração. O testemunho dos sobreviventes, enfim abertamente expresso, discutido e difundido, dava-nos a medida de como parte de nossas vidas, diante do impacto dos relatos, das narrativas e mesmo dos silêncios, era vivida como “vidas emprestadas”.
Era como se a experiência deles tivesse sido incorporada em nós, fazendo parte da nossa própria biografia. Nós nos dávamos conta de que, como se nossos inconscientes tivessem sido colonizados, parte de nossas vidas haviam sido vividas antecipada e penosamente, nos campos, nos esconderijos, nos refúgios, nas dobras da dor, no ostracismo, no vazio.
E reagimos: aprendemos a superar, a transformar nossas “vidas emprestadas”. Desenvolvemos terapias, criamos grupos de apoio, escrevemos manuais, tratados e teorias sobre vitimas, desequilíbrios e traumas secundários. Havíamos nos tornado a Segunda Geração, não mais do Holocausto, mas de sobreviventes. Assim como nossos pais, penosamente, nos tornamos uma geração de fortes.
Um pouco mais tarde, no final da década de 1980, meu pai, ao escrever “Anos de Luta”, ensejou a transformação do meu olhar: pelas brechas da sua narrativa pude, pela primeira vez, entrar em contato com o heroísmo do sobrevivente, com a sua ousadia, a sua coragem e a sua “super-humanidade”. Eu podia, finalmente, entender porque eu e toda a Segunda Geração, apesar de nossas “vidas emprestadas”, fomos (e ainda somos) a concretização mais dramática do grito judeu de “no pasaran!” ao nazismo. Hoje, a iniciativa da minha filha caçula - Terceira Geração do Holocausto - que escolhe organizar, ilustrar e publicar o relato de meu pai, transformando a memória da dor dele e da minha penosa “vida emprestada” em uma criação coletiva, que nos ata a todos, Primeira, Segunda e Terceira gerações, tem o poder de conotar um significado verdadeiramente novo a minha geração, libertando-me do empréstimo, redimindo-me da penosa sombra de um sofrimento antecipadamente vivido.


Obrigada, pai e obrigada, filhas.


Annie Dymetman, São Paulo, 2011.
Filha de Michel Dymetman